29 de setembro de 2011

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Todas as paredes e os quadros e os livros e a janela e a cama e o piso... Nada. Nenhum objeto me ama. O quarto poderia se curvar sobre meu corpo, abraçando-me, e cada livro, como um dedo, afastar os meus cabelos, enxugar as minhas lágrimas... Os sapatos poderiam ter vida, e os lápis, e os clips, assim como eu imaginava quando criança... Mas a réstia do mundo que penetra a janela, a energia que faz a luz piscar a cada dez segundos, nada veio pra me iluminar. As coisas são sem propósito pessoal. As coisas são só para as coisas. Não há ninguém. Estou derretendo e as fibras do colchão me absorvem sem afeto. O travesseiro sem vontade abafa meu escândalo. A porta estática me protege dos outros. É tudo o que tenho até que amanheça... Depois irei ao encontro das pessoas, e por que elas não perceberão nada, vão me tratar como as coisas me tratam, com naturalidade... Estou cansada de naturalidade. Poderia forçar até que os objetos me amassem, porque é sempre mais fácil lidar com objetos. Mas para isso eu teria que ultrapassar a minha própria lucidez, e não... Preciso estar lúcida, o mais possível, para ver tudo, sentir tudo, entender cada contradição. Entender, inclusive, o absurdo que existe entre eu estar aqui com um sofrimento tão íntimo e egoísta, e o mundo estar lá fora cheio de sangue e desigualdade... Tudo dói e tudo está suspenso. O dia passa como uma estrela cadente, e a minha vida também. Tudo está preso nos três minutos de uma canção, e de outra e mais outra... Sempre foi assim, desde que a primeira pessoa sofreu, e sempre será. Nada fará sentido por alguns minutos, e talvez esses minutos se transformem em semanas, em meses... talvez uma vida inteira não baste para tão pouco sentido... Mas no meio da névoa um sorriso de criança, um doce, uma flor, uma imagem amena no céu, alguma coisa virá transpor, rasgar a dor com um acento de delicadeza... e por isso, por mais nada, só por isso, a vida seguirá.... Assim sempre esperei. Só não posso me privar de sentir a minha dor e de agarrá-la com toda a força. Ela é minha. Ela me quer e eu também a quero. O mundo padece lá fora e eu aqui dentro. Todos sofrem. Só as coisas permanecem neutras.

Imagem: René Magritte.

2 ...dizer(es).:

Ramon de Alencar disse...

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-O que torna tuas palavras tão fortes, tão belas, é que elas parecem ser tiradas de dentro de todos que as leram.

Na verdade, quando te leio parece estar lendo a mim mesmo e a todos os outros; lendo o que se escreveu por dentro.
Lendo aquilo que pertence a todos nós e que só às vezes pomos nomes através de algum sentimento.

Jonas Torres disse...

"As coisas são sem propósito pessoal. As coisas são só para as coisas. Não há ninguém." É verdade, mas acho que o não-senso das coisas é muito eficaz: como a casa vazia dos linguistas estruturalistas que faz tudo no mundo funcionar. É maldição e benção. Sua escrita é assim: linda e com regras próprias de produção de sentido - fina película entre profundidade e altura. (Concordando com o comentário acima: gosto muito de ler =P).

Abração!